Em 2012, o Exército receberá cerca de R$ 28,018 bilhões, mas 90% serão
destinados ao pagamento de pessoal. Desde 2004, varia entre 9% e 10% o
montante disponível para custos operacionais e investimentos.
A ideia do ministro da Defesa, Celso
Amorim, é elevar gradativamente os gastos com defesa para a média dos
demais países dos Brics (Rússia, Índia e China), que é de 2,4%. Segundo
afirmou em audiência no Senado, o objetivo é fazer o Brasil ter maior
peso no cenário internacional.
“Nós
perdemos nossa capacidade operacional, sabemos dessa defasagem. A
obsolescência é grande. Por isso, um dos nossos projetos busca a
recuperação da capacidade operacional. Até 2015, devemos receber R$ 10
bilhões só para isso”, afirma o general Schneider Filho, responsável
pelos estudos da END no Estado-Maior do Exército.
Posso lhe afirmar que possuímos munição para menos de uma hora de combate"
General Maynard Santa Rosa
Falta munição
Dois
generais da alta cúpula, que passaram para a reserva recentemente,
afirmaram ao G1 que o Brasil não tem condições de reagir a uma guerra.
“Posso lhe afirmar que possuímos munição para menos de uma hora de
combate”, diz o general Maynard Marques de Santa Rosa, ex-secretário de
Política, Estratégia e Assuntos Internacionais do Ministério da Defesa.
“A
quantidade de munição que temos sempre foi a mínima. Ela quase não
existe, principalmente para pistolas e fuzis. Nossa artilharia, carros
de combate e grande parte do armamento foram comprados nas décadas de
70, 80. Existe uma ideia errada de que não há ameaça. Mas se ela surgir,
não vai dar tempo de atingir a capacidade para reagir”, alerta o
general Carlos Alberto Pinto Silva, ex-chefe do Comando de Operações
Terrestres (Coter), que coordena todas as tropas do país.
“Nos
últimos anos, o Exército só tem conseguido adquirir o mínimo de munição
para a instrução. Os sistemas de guerra eletrônica (rádio, internet e
celular), a artilharia e os blindados são de geração tecnológica
superada. Mais de 120 mil fuzis têm mais de 30 anos de uso. Não há
recursos de custeio suficientes”, diz Santa Rosa. Ele deixou o Exército
em fevereiro de 2010, demitido por Lula após chamar a Comissão da
Verdade, que investiga casos de desaparecidos políticos na Ditadura, de
“comissão da calúnia”.
Nós perdemos nossa capacidade operacional, sabemos dessa defasagem. A obsolescência é grande"
General Walmir Almada Schneider Filho
Segundo
o Livro Branco, documento que reúne dados sobre a defesa nacional, o
Exército possui 71.791 veículos blindados, a maioria deles comprados há
mais de 30 anos. Apenas um é do modelo novo, o Guarani, entregue em 2012
e que ainda está em avaliação. Um contrato inicial de R$ 41 milhões foi
fechado para a aquisição dos primeiros 16 novos carros de combate. No
último dia 7, um novo contrato foi assinado para a aquisição de outras
86 viaturas Guarani, ao custo de R$ 240 milhões.
"Nenhuma
nação pode abrir mão de ter um Exército forte, que se prepara
intensivamente para algo que espera que nunca ocorra. A população tem
que entender que é preciso ter essa capacidade ociosa, sempre, para
estar pronto para dar uma resposta se um dia for necessário", defende o
general Fernando Vasconcellos Pereira, diretor do Departamento de
Educação e Cultura do Exército.
Riscos e ameaças
Para
saber quais equipamentos, tecnologias e armas precisam ser compradas e
que outras mudanças são necessárias, o Exército criou o Grupo Lins, que
reúne uma equipe para prever cenários de conflitos ou crises - internos
ou externos - em que a sociedade e os políticos possam exigir a atuação
dos militares até 2030.
O
objetivo é antever problemas, sejam econômicos, sociais, de segurança
pública ou de calamidade, e saber quais treinamentos devem ser dados aos
soldados até lá.

Soldados recrutas fazem teste de resistência em treinamento no Exército
Nesses cenários, a Amazônia e as
fronteiras estão entre as maiores preocupações. O texto revisado da
Estratégia Nacional de Defesa, entregue pelo governo ao Congresso
Nacional em 17 de julho, destaca "a ameaça de forças militares muito
superiores na região amazônica”.
Difícil
– e necessário – é para um país que pouco trato teve com guerras
convencer-se da necessidade de defender-se para poder construir-se"
Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
Para
impedir qualquer ataque, o Exército prepara o Sistema Integrado de
Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), que, através de um conjunto de
sensores, radares e câmeras, permitirá a visualização de tudo o que
ocorre nas fronteiras em tempo real. Os equipamentos facilitarão a
repressão ao tráfico de drogas e armas, ao contrabando e aos crimes
ambientais. A previsão é de que o sistema esteja totalmente operando em
2024.
Guerreiro de selva patrulha rio na Amazônia durante ação militar em 2012

O alto valor que o governo pretende
passar para o Sisfron - R$ 12 bilhões até 2030 – movimentou o mercado
nacional e fez com que empresas se unissem buscando soluções para vencer
a licitação em andamento. Entre as interessadas estão Odebrecht,
Andrade Gutierrez e Embraer, que fizeram parcerias com grandes
indústrias do setor.
Para
o historiador e criador do Núcleo de Estudos Estratégicos da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Geraldo Cavanhari, o
Exército está em transformação e precisa se adequar para os inimigos do
futuro. “O inimigo, seja interno ou externo, agora está extremamente bem
armado. Por enquanto, não temos ameaças explícitas, mas temos que
cuidar da nossa casa e estar preparados para responder, caso seja
necessário”.
O
general da reserva Carlos Alberto Pinto Silva diz que o problema
continua sendo o orçamento. "Um coronel argentino me disse que eles
aprenderam na guerra nas Malvinas que, se não existe a capacidade mínima
de responder, não dá tempo para adquirir. Não adianta chorar depois”,
afirma.
Mudança de percepção
Estudioso
da área, o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Ronaldo Fiani entende que a abertura democrática e a criação do Mercosul
provocaram mudanças na forma da população conceber a proteção do país,
Consequentemente, foram feitos cortes nos investimentos militares. “O
fim da ditadura e a união dos países latinos fez com que houvesse
enfoque em integração, com diminuição do investimento na área militar",
explica.
Burocracia, crises financeiras e déficit fiscal também são entraves para maior disponibilidade de recursos.
“A única forma dos militares receberem mais investimentos é se
integrando à pesquisa acadêmica e às empresas, como ocorre nos países
desenvolvidos", diz Fiani.
General José Carlos de Nardi cumprimenta índiosdurante visita ao Pará

O general Walmir Almada Schneider Filho
concorda com o professor. “No primeiro mundo, o povo tem a mentalidade
de que defesa e desenvolvimento caminham juntos e complementam-se. Um
impulsiona o outro. Nós não queremos chegar neste patamar [de país
voltado para a guerra], mas criar uma mentalidade de defesa, para que o
povo discuta o assunto", diz.
"A
base da defesa nacional é a identificação da Nação com as Forças
Armadas e das Forças Armadas com a Nação. Isso exige que a Nação
compreenda serem inseparáveis as causas do desenvolvimento e da defesa"Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
“Eu
acho que a redução dos investimentos tem relação com o período militar e
a própria mentalidade da população, que vê como melhor alternativa
aplicar os recursos em outro setor fundamental, como saúde, educação,
etc", acrescenta Schneider Filho.
"Não
há um palmo sobre o território brasileiro que não esteja sob a
responsabilidade de uma tropa do Exército. Somos a organização mais
presente em todo o território e que tem meios de chegar o quanto antes
em qualquer situação. Por isso, assumimos cada vez mais
responsabilidades e temos que ter capacidade para atuar em situações de
emergência”, diz o general José Fernando Yasbech, também do Estado-Maior
do Exército.
Yasbech
se refere aos múltiplos empregos do Exército em ações civis dentro do
país, como as operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), como a
Constituição determina o emprego militar em casos graves de segurança
pública. Além disso, o militares são convocados para o apoio em caso de
enchentes, abertura de estradas, construção de pontes, distribuição de
ajuda humanitária, apoio em eleições, combate à dengue e à aftosa, entre
outros.
Proteger
Em
2012, mais uma linha de atuação está sendo aberta: os militares serão
responsáveis pela defesa e proteção de infraestruturas estratégicas do
país, como hidrelétricas, usinas nucleares, indústrias essenciais e
centros financeiros e de telecomunicações a partir da criação do projeto
Proteger. O programa terá recursos na casa dos R$ 9,6 bilhões e reunirá
órgãos públicos dos estados e informações necessárias para prevenir,
conter ou reprimir ataques ou acidentes nesses locais.
"Se
o Brasil quiser ocupar o lugar que lhe cabe no mundo, precisará estar
preparado para defender-se não somente das agressões, mas também das
ameaças"Trecho da Estratégia Nacional de Defesa
São
mais de seis mil infraestruturas estratégicas existentes no país, sendo
que 364 estão entre as mais críticas, conforme levantamento do Gabinete
de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.
"O
trabalho será tanto no sentido de prevenir acidentes nessas estruturas
como também de identificar riscos e, eventualmente, contê-los", diz o general José Fernando Yasbech, que responde pelo projeto.
O
trabalho começará no Paraná, com a implementação de um centro de ação
conjunta com polícia, Bombeiros e Defesa Civil para defender a Usina de
Itaipu.
“O
reaparelhamento das Forças Armadas vai além de apenas dizer que um país
pacifista está tomando uma atitude de se tornar mais bélico. O emprego
dos militares tem sido bem diferente nos últimos anos, seja em ações de
defesa civil, de segurança pública, de apoio aos órgãos estaduais. E
isso demanda alterações estruturais profundas na política, na
mentalidade da população e em investimentos”, diz Iberê Pinheiro Filho, mestre em Relações Internacionais e estudioso da Estratégia Nacional de Defesa.
Pelotão de fronteira no Pará conta com apenas 9 horas diárias de luz
Procurado para comentar a atual
situação do Exército, o ex-ministro de Assuntos Estratégicos Roberto
Mangabeira Unger, que escreveu o texto da Estratégia Nacional de Defesa,
disse que se considerava "moralmente impedido de falar" devido à
"relação íntima e especial com as ações e tarefas de que tratará a
reportagem".
"Direi
apenas o que escrevi na dedicatória de um livro que dei à biblioteca do
Exército, por mãos do general que a comanda: o Exército brasileiro é a
mais importante instituição do Brasil", afirmou Mangabeira Unger ao G1.
Já
o ex-ministro da Defesa Nelson Jobim, que também assinou a END em 2008,
disse que não iria comentar a situação, pois não ocupa mais o cargo.
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Fonte : G1 |